Um agente de IA não vai abrir conta em banco
Um programa de inteligência artificial que negocia, paga e recebe dinheiro de outros agentes não passa por reconhecimento facial nem preenche endereço para abrir conta corrente. Essa é a lógica usada por Fabrício Tota, executivo responsável pelos negócios cripto do Mercado Bitcoin, para defender que esse novo tipo de cliente vai buscar trilhos diferentes dos bancários tradicionais, nos chamados pagamentos agênticos [1].
“Eu não vejo um agente indo ao banco, fazendo face match para abrir a conta ou colocando o seu endereço para poder ter uma conta em banco. Por isso acredito muito que esse trilho tenha alguma coisa a ver com o meu segmento, com o mundo cripto, blockchain e stablecoins.”
Tota falou no dia 14 de outubro, no evento Asaas Connect 2026, da fintech de pagamentos Asaas. Ele participou de um painel sobre o futuro do dinheiro ao lado de João Vitor Possamai, CFO do Asaas, e Paulo Gerber, fundador da Bullet Cash [1].
A tese ainda é uma aposta. Tota não apresentou estimativa de mercado nem anunciou produto do Mercado Bitcoin voltado a esse público [1].
O que são pagamentos agênticos
O mercado chama essas transações de pagamentos agênticos: operações em que um software age com autonomia, em nome de uma pessoa ou empresa, sem que ninguém precise clicar em um botão de confirmação [1]. É esse tipo de operação que, segundo os executivos ouvidos pelo Asaas Connect, deve buscar trilhos alternativos ao sistema bancário tradicional.
Pix e cartão ainda travam, mesmo para humanos
O diagnóstico que sustenta a tese cripto parte de um problema concreto: os meios de pagamento atuais foram desenhados para pessoas, e mesmo para elas ainda geram atrito. Paulo Gerber, da Bullet Cash, que passou quase 20 anos na Credicard, aponta a autenticação como o ponto mais difícil de resolver. Confirmações extras por token ou e-mail desgastam o cliente e às vezes custam a venda [1].
Tota usa o Pix e o pagamento por aproximação como referência de conveniência, mas reconhece limites até no sistema instantâneo brasileiro: por prevenção a fraude, o Pix não funciona tão bem de madrugada, com restrições impostas pela instituição ou pelo próprio usuário [1].
No comércio on-line, a crítica mais dura recai sobre o cartão de crédito. A sequência de número, validade, CVV, endereço, CPF e CEP ainda pode falhar e pedir confirmação extra [1].
Para um agente de IA que faz milhares de operações por dia, cada uma dessas etapas pensadas para humanos vira um obstáculo multiplicado por escala.
Gigantes dos pagamentos já constroem os trilhos cripto
Fora do Brasil, empresas de pagamento e tecnologia já colocam essa infraestrutura em produção, em pelo menos três frentes paralelas:
Visa e Mastercard seguem uma via adicional: adaptam suas próprias redes de cartão com credenciais e autorizações específicas para agentes, sem exigir uma infraestrutura nova [1]. Ao anunciar o Agent Pay for Machines, o executivo-chefe de produto da Mastercard, Jorn Lambert, descreveu o momento como uma mudança na forma como serviços são comprados e vendidos entre agentes, em escalas diferentes das praticadas hoje [3].
- x402 (Coinbase): lançado em maio de 2025, permite a agentes pagar por recursos dentro da própria comunicação da internet, em stablecoin. A Stripe passou a aceitar pagamentos via x402 em fevereiro deste ano, cobrando agentes em USDC, a stablecoin de dólar da Circle [1].
- AP2 (Google): lançado em 16 de setembro de 2025, é um padrão aberto com mais de 60 parceiros de pagamento e tecnologia para agentes completarem transações sem exigir confirmação do comprador a cada etapa [2]. O Google descreve o AP2 como agnóstico quanto ao meio de pagamento. Mastercard, American Express, PayPal e Coinbase estão entre os parceiros, e o protocolo funciona com cartões, transferências bancárias e stablecoins [1][2].
- Agent Pay (Mastercard): estende a tokenização já usada em carteiras digitais para identificar o agente e aplicar limites definidos pelo titular, com apoio de parceiros como Coinbase e a fintech de stablecoins BVNK [3].
Quanto vale o mercado de stablecoins hoje
O mercado de stablecoins já movimenta mais dinheiro por ano do que as duas maiores bandeiras de cartão juntas, segundo dados citados por Tota no Asaas Connect 2026. O estoque de ativos emitidos soma cerca de US$ 300 bilhões, e o volume transacionado em 2025 superou a soma de Visa e Mastercard [1].
Para 2026, Tota projeta um volume de stablecoins entre 30% e 40% acima do registrado pelas duas bandeiras somadas. Ele credita ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) parte do impulso que o ativo ganhou em remessas internacionais no Brasil [1].
A comparação direta exige cautela: parte do volume em blockchain reflete transferências entre carteiras e ajustes de liquidez, não compras. Por isso, a Chainalysis estima que os fluxos de pagamento em stablecoin só devem empatar com Visa e Mastercard entre 2031 e 2039 [1].
| Indicador | Valor | Período |
|---|---|---|
| Estoque total de stablecoins | ~US$ 308 bilhões | agosto de 2026 [1] |
| Pico histórico do estoque | US$ 322,4 bilhões | maio de 2026 [1] |
| Volume de transferências em stablecoin | ~US$ 33 trilhões (+72% a/a) | ano de 2025 [1] |
| Volume combinado Visa + Mastercard | US$ 23,7 trilhões (US$ 14,5 tri + US$ 9,2 tri) | ano de 2025 [1] |
A tokenização pode ser a ponte entre dois sistemas
Para pagamentos agênticos ganharem escala sem que o usuário perceba qual tecnologia está por trás, a aposta de Tota está na tokenização: criar em blockchain a versão digital de um ativo que já existe, rodando sobre contratos inteligentes que executam regras de negócio automaticamente [1].
Um exemplo citado por ele é o pagamento dividido, o split payment, hoje em discussão pelo Banco Central para o Pix, que classifica como o primeiro exercício desse tipo de programação [1].
O mesmo recurso permite a liquidação atômica, em que dinheiro e ativo trocam de mãos ao mesmo tempo. A operação só se completa se as duas pontas cumprirem sua parte, eliminando o risco de um lado pagar e o outro não entregar [1].
Para Paulo Gerber, cuja empresa migrou clientes do antigo Gamers Bank para um produto construído em blockchain desde a segunda metade de 2024, esse trilho é mais seguro, moderno e flexível do que alternativas como o Swift para pagamentos internacionais de baixo valor [1].
Quem autoriza o robô a gastar?
A decisão final de um pagamento ainda deve passar por uma pessoa, segundo os próprios executivos que defendem a automação, o que cria uma tensão entre controle humano e autonomia do agente. Paulo Gerber afirma que sempre vai existir um momento em que se exige a decisão final do consumidor, mesmo em um sistema pensado para operar sem cliques [1].
Dois mecanismos já tentam equacionar esse dilema. O protocolo AP2 vincula cada ação do agente a uma autorização explícita da pessoa, que registra quem permitiu o quê e em quais condições [1][2]. Já os tokens de agente da Mastercard carregam a identidade do agente, as permissões definidas pelo titular e os limites de gasto, aplicados a cada transação processada na rede [1][3].
A prevenção a fraudes soma-se a essa camada. Segundo Gerber, os processos de segurança apoiados em IA precisam ser calibrados para não gerar falsos positivos em um volume de transações maior do que o atual [1].
A regulação brasileira ainda não resolveu a responsabilidade
No Brasil, a supervisão sobre esse mercado já está em curso, mas a responsabilidade por erros de um agente autônomo segue indefinida. O Banco Central passou a supervisionar os prestadores de serviços de ativos virtuais (PSAVs), e as empresas do setor têm até 30 de outubro de 2026 para pedir licença [1].
Tota discorda de quem vê a medida como freio à inovação. Para ele, a regra não mira o segmento cripto especificamente, mas eleva o nível de governança exigido de fintechs e instituições de pagamento em geral [1].
O que ainda falta definir é quem responde quando um agente executa uma operação indevida: a empresa que criou o agente, quem guardou os recursos ou o usuário que concedeu a permissão [1]. Enquanto essa linha não estiver clara, os pagamentos entre robôs devem continuar mais perto dos laboratórios de inovação do que do bolso do consumidor final.
O que isso significa para quem vende on-line no Brasil
Para times de e-commerce e pagamentos, o sinal mais imediato não é uma mudança de meio de pagamento amanhã. É a necessidade de acompanhar de perto como bandeiras e bancos vão plugar o agente de compra do cliente ao checkout. Mastercard e Visa já adaptam suas redes com tokens específicos para agentes, sem trocar a infraestrutura que o varejista já usa [1].
Isso torna essa rota, hoje, mais compatível com a operação de quem vende no Brasil do que a adoção direta de stablecoin.
Ainda assim, a combinação de um sistema de pagamentos brasileiro dominado por Pix e cartão, com 54,7% e 30,4% das transações no segundo semestre de 2025 [1], e de protocolos internacionais abertos a múltiplos trilhos, incluindo stablecoin, sinaliza que o checkout agêntico vai precisar aceitar mais de um tipo de autorização ao mesmo tempo.
Acompanhar quais protocolos os maiores emissores e adquirentes do país vão adotar é o primeiro passo prático antes de qualquer decisão de arquitetura.
Fontes
- [1]Finsiders Brasil, Pagamentos feitos por agentes de IA podem criar nova demanda por 'stablecoins — finsidersbrasil.com.br
- [2]Digital Commerce 360, Google launches payments protocol for AI commerce, names dozens of partners — digitalcommerce360.com
- [3]Mastercard, Mastercard Launches Agent Pay for Machines to Unlock Super-Fast, Always-On Payments — investor.mastercard.com



