Inteligência artificial no varejo: Boticário usa 16 mil modelos para prever vendas
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Inteligência artificial no varejo: Boticário usa 16 mil modelos para prever vendas

Grupo Boticário aplica inteligência artificial no varejo com 16 mil modelos de machine learning para prever vendas, evitar ruptura e guiar expansão de lojas.

Por VTEX21 de out. de 20265 min de leitura
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Um quarto das vendas de 2025 não existia um ano antes

Em 2025, 27% de tudo o que o Grupo Boticário vendeu não estava na prateleira nem no aplicativo 12 meses antes, segundo dados do próprio grupo [1]. O caso ilustra o potencial da inteligência artificial no varejo: em quatro anos, o GMV do grupo saltou de R$ 18 bilhões, em 2021, para R$ 38,1 bilhões em 2025 [1].

O avanço levou o grupo à liderança do setor de beleza nas categorias de perfumaria, maquiagem e cuidados com a pele em 2025, à frente da Natura, segundo dados da NielsenIQ citados pelo InvestNews [1]. Para qualquer executivo de comércio avaliando onde investir em IA, o caso interessa menos pela tecnologia em si e mais pelo que veio antes dela.

Por onde começar: dados ou modelos de IA?

A pergunta que todo varejista faz hoje, por onde começar com IA, tem uma resposta no case do Boticário: pela unificação dos dados, não pelos modelos. Cinco anos atrás, a companhia não tinha controle direto sobre as plataformas de venda ao consumidor final, que eram todas de terceiros, o que também significava ausência de acesso qualificado aos dados gerados nessas interações [1].

“Eu vejo as pessoas que querem chegar à IA, mas não construíram o caminho antes.”
Fernando Modé, CEO do Grupo Boticário [1]

A virada começou com um sistema próprio capaz de integrar e-commerce, lojas físicas e venda direta digitalizada em uma base de dados unificada, seguido pelo login único, que reconhece o mesmo consumidor em qualquer canal sem atrito de cadastro [1].

Dessa estrutura nasceu o Beauty Box, programa de fidelidade lançado em 2024 que já soma mais de 26 milhões de usuários ativos [1].

Dezesseis mil modelos de machine learning evitam a prateleira vazia

No abastecimento da rede franqueada, o Grupo Boticário opera hoje 16 mil modelos de machine learning, quatro por ponto de venda, para calcular a previsão de vendas de cada marca, loja e ciclo de reposição [1]. O resultado foi uma redução de até 40% na ruptura de estoque, quando falta produto na prateleira, e uma queda de 25% no excesso de inventário [1].

Para decisões de expansão, a empresa usa um modelo diferente, com 2,7 mil variáveis socioeconômicas, que avalia 99% do território brasileiro, projeta retorno com índice de 90% de acerto e já identificou mais de 500 locais potenciais [1]. No último ano, o Boticário abriu 120 lojas, recorde da última década [1].

Aplicação de IAÁreaResultado reportado
16 mil modelos de machine learningReposição de estoqueRuptura -40%; excesso de estoque -25% [1]
Modelo com 2,7 mil variáveisExpansão de lojas99% do território avaliado; 500+ locais identificados [1]
Assistente de IA generativaApp e e-commerceConversão +46%; ticket médio +7,4% [3]
Projeto LyraPesquisa e desenvolvimentoTempo de análise de qualidade -62% [1]

A assistente de IA generativa já move o ticket médio

A primeira assistente de inteligência artificial para e-commerce do Grupo Boticário, lançada no aplicativo da marca O Boticário, substitui menus e buscas tradicionais por uma conversa em linguagem natural, treinada em modelo proprietário sobre a infraestrutura do Amazon Bedrock Agents, da AWS [3]. A ferramenta monta rotinas de cuidado, explica por que um produto serve a determinado tipo de pele e ajuda na escolha de presentes [3].

No primeiro mês de implementação, a assistente gerou um aumento de 46% na conversão de vendas, e o ticket médio de quem a usa é 7,4% superior ao de quem não usa [3].

O CTO do grupo, Renato Pedigoni, descreveu a decisão como uma forma de ir além dos chatbots tradicionais para oferecer algo que também fidelize o cliente. Segundo ele, a assistente faz parte de uma carteira que já reunia mais de 60 projetos proprietários de IA em 2025 [3].

A IA cobre da fábrica à prateleira, não só o app

O Grupo Boticário descreve o uso de dados e inteligência artificial como algo que percorre toda a cadeia, da indústria ao ponto de venda, segundo apresentação do CDO e CISO Marcelo Miola no Congresso Indústria Digital 2025 [2].

A companhia mantém mais de quatro mil lojas próprias e franqueadas, nove centros de distribuição, sete escritórios e três polos industriais. Registrou R$ 35,7 bilhões em vendas totais em 2024, sustentados por 350 times de tecnologia e 70 modelos e soluções de IA proprietárias [2].

Entre as aplicações voltadas ao consumidor, a companhia cita:

Na cadeia de suprimentos, a IA também orienta a gestão de demanda, o desenvolvimento de formulações e o modelo de expansão baseado nas 2.700 variáveis socioeconômicas já citado [2].

  • Descrição acessível de imagens de produto [2]
  • Personalização no aplicativo, no site e na loja [2]
  • Promoções customizadas por perfil [2]
  • Moderação automática de avaliações de clientes [2]
  • Sugestões automáticas de pedidos para franqueados e cadastro inteligente de produtos para sellers [2]

O próximo campo de disputa é a loja física

Para o CEO Fernando Modé, o ambiente físico é o próximo grande campo de aplicação da inteligência artificial dentro do grupo, e também um desafio cultural [1]. O plano é transformar as quase quatro mil lojas da marca Boticário em pontos mais calibrados ao perfil do consumidor de cada região, usando como exemplo a categoria de skincare, que exige mais conhecimento técnico do atendente [1].

Com os dados do Beauty Box, o grupo já consegue identificar em quais lojas há maior concentração de clientes interessados em cuidados com a pele, e ajustar a partir disso estoque, treinamento das consultoras e disposição de produtos [1]. Parte da força de vendas, reconhece Modé, ainda associa os dados do programa de fidelidade apenas a preços mais baixos, o que ele considera uma subutilização da ferramenta [1].

Natura e L'Oréal correm atrás com caminhos diferentes

Boticário, Natura e L'Oréal disputam a liderança do setor de beleza no Brasil usando a mesma arma, com abordagens distintas, segundo o InvestNews [1].

A Natura lançou em 2024 a Busca Inteligente, ferramenta de IA generativa da AWS que atende mais de 1 milhão de consultoras. Já a L'Oréal recorre a parcerias com grandes plataformas de tecnologia, incluindo Nvidia e IBM, para renderizações digitais e formulação cosmética com IA [1].

A diferença destacada pelo CEO do Boticário é que o grupo construiu suas soluções de ponta a ponta internamente, do transacional à camada de IA, em vez de depender de infraestrutura de nuvem de terceiros como a Natura ou de parcerias externas como a L'Oréal [1].

O pano de fundo comum às três é um consumo das famílias brasileiras que cresceu apenas 1,3% em 2025, contra 5% no ano anterior, segundo o IBGE [1].

O que a inteligência artificial no varejo ensina a quem vende online no Brasil?

O caso do Boticário sugere uma ordem de prioridades para qualquer operação de comércio que queira escalar IA: primeiro unificar dados de todos os canais sob uma identidade única de cliente [1] [3].

Depois, aplicar modelos preditivos a problemas operacionais mensuráveis, como ruptura de estoque e expansão de pontos de venda, e só então investir em camadas conversacionais voltadas ao consumidor final [1] [3].

A combinação de infraestrutura de dados e modelos de IA já afeta diretamente o resultado: duas linhas lançadas nos últimos anos, Clash e Her Code, já superam a casa de R$ 1 bilhão em vendas anuais, em um mercado onde o crescimento do consumo desacelerou [1].

Para o setor de beleza, e para o varejo brasileiro em geral, a lição é que o retorno da IA depende menos do modelo escolhido e mais da qualidade dos dados que o alimentam.

Fontes

  1. [1]InvestNews, O Grupo Boticário mapeou a cliente com IA. O desafio é mostrar que dá para ir além do desconto — investnews.com.br
  2. [2]E-Commerce Brasil, IA redefine jornadas interna e externa no Grupo Boticário — ecommercebrasil.com.br
  3. [3]Mercado&Consumo, IA do Grupo Boticário atua como consultora de beleza digital — mercadoeconsumo.com.br