Orfeu multiplicou os pedidos diários depois de deixar o papel para trás
Há um ano, o centro de distribuição da Orfeu, marca de cafés especiais, atendia de 100 a 150 pedidos de e-commerce por dia, com boa parte do controle feito em papel [1]. Depois de implantar um sistema de gerenciamento de armazém (WMS) e coletores de dados, a operação já chegou a atender 800 pedidos em um único dia [1].
O case foi apresentado em 13 de outubro, durante o Universo Totvs 2026, em São Paulo, ao lado do Grupo BT, distribuidor de equipamentos de proteção individual e materiais de manutenção [1].
As duas empresas mostraram como dados e automação mudam a rotina dentro do armazém: onde fica cada produto, quanto tempo o separador leva para montar um pedido e quanto o gestor consegue enxergar da operação sem sair da mesa [1].
Para quem vende online no Brasil, o salto da Orfeu importa menos pelo número absoluto e mais pela origem do problema: a pressão veio do próprio consumidor final, que passou a cobrar rastreio rápido assim que o pedido saía do carrinho.
Qual escala mede a maturidade da intralogística de um e-commerce?
A consultoria Gartner divide a movimentação de produtos dentro do armazém em cinco níveis de maturidade: manual, controlado, conectado, inteligente e autônomo, e hoje 72% das empresas estão no nível três ou abaixo [1]. O salto para o quarto nível, em que a inteligência artificial (IA) passa a antecipar problemas, esbarra na forma como os sistemas conversam entre si.
Para a Totvs, fornecedora do WMS usado nos dois cases, uma integração que apenas leva a nota fiscal ou o cadastro do cliente de um sistema para outro já não é suficiente: é preciso ter a informação de ponta a ponta numa mesma plataforma [1]. A empresa afirma ter levado três anos só para definir a arquitetura de dados de suas soluções de logística [1].
Essa é a barreira que separa a maioria das operações brasileiras, ainda presas a planilhas e sistemas que não trocam dado em tempo real, de uma intralogística que de fato prevê gargalos antes que eles travem a expedição.
O CD da Orfeu trocou papel por coletores de dados e painéis em tempo real
A resposta da Orfeu começou pela limpeza da própria base antes de qualquer automação. Ricardo Madureira, CEO da empresa, contou que o cliente do e-commerce espera receber rápido o código de rastreio, o que exigia um sistema capaz de acompanhar a mudança da operação [1].
“Hoje ele ficou muito menos dependente do supervisor ali ou do líder do setor e deu uma certa autonomia para ele.”
"Nós, por exemplo, tivemos que fazer um saneamento enorme no nosso banco de dados, porque a gente já vinha acostumado com um processo manual e precisamos nos adequar, e ali foi onde a gente viu oportunidade de arrumar a casa", afirmou Madureira [1].
Com os coletores, a equipe passou a gerar e atender demandas dentro dos horários de corte das transportadoras, e os indicadores da operação foram parar em televisões espalhadas pelo armazém [1]. O operador também ganhou acesso direto a informações como endereços vazios e saldo de estoque.
Grupo BT reduziu o tempo de separação ao reorganizar o mapa do armazém
No Grupo BT, o WMS foi implantado há seis meses e a mudança começou pela própria gestão, segundo Itamar Rogério Bacho, gerente de tecnologia da informação do grupo [1]. Antes, o gerente logístico ficava no meio da operação; hoje acompanha tudo por um painel [1].
Com um mapa de calor do armazém, a empresa levou os produtos de maior saída para perto da área de conferência e para os níveis mais baixos das estantes, que têm cinco andares [1]. O operador deixou de esperar a empilhadeira para buscar um item de alto giro, e o número de pedidos separados cresceu 20%, com a operação passando a ocupar menos espaço [1].
A tabela resume o antes e depois relatado pelas duas empresas no painel:
A rastreabilidade também chegou ao cliente final. Quando um comprador reclama de item faltando ou com defeito, a BT consegue verificar o horário e a forma como a caixa foi conferida, o que passou a dar confiança ao time comercial sobre o estoque mostrado pelo sistema [1]. "Antigamente, ele chegava na posição, não tinha o produto. É um cliente não atendido", resumiu Bacho [1].
| Empresa | Antes do projeto | Depois do projeto |
|---|---|---|
| Orfeu | 100 a 150 pedidos/dia, controle em papel [1] | Pico de 800 pedidos em um único dia [1] |
| Grupo BT | Gerente logístico operando dentro do galpão [1] | +20% em pedidos separados, menos espaço ocupado [1] |
Quem é a Orfeu e por que o e-commerce virou prioridade
A Orfeu nasceu em 1995, quando Roberto Irineu Marinho, acionista do Grupo Globo, adquiriu a Fazenda Sertãozinho, em Botelhos, no Sul de Minas Gerais [2]. O e-commerce já havia se mostrado um canal estratégico antes mesmo do projeto de WMS: durante a pandemia, as vendas online da marca cresceram 60%, enquanto o setor de cafés especiais como um todo crescia 40% [2].
Esse avanço não parou. Entre 2021 e 2022, as vendas da Orfeu na Amazon subiram 200%, e a marca passou a vender também na Amazon dos Estados Unidos para atender brasileiros residentes no exterior [3].
Hoje o B2C, que inclui varejo e e-commerce, representa mais da metade da receita da companhia [3]. É esse volume crescente, e a exigência de entrega rápida que vem com ele, que forçou o centro de distribuição a abandonar o controle manual.
Inteligência artificial já automatiza tarefas no chão do armazém
Com um ano de projeto, a Orfeu já liberou o uso de IA para a equipe operacional: três pessoas que conheciam bem a rotina do armazém passaram a usar o assistente da Totvs para automatizar tarefas e criar guias de consulta [1].
Madureira deu um exemplo prático da diferença: rastrear a movimentação de um item no sistema de gestão exigia cerca de 30 cliques; com o agente, basta enviar uma mensagem de áudio para receber a resposta de rastreabilidade [1].
A Totvs também apresentou agentes em desenvolvimento. Um deles, voltado ao recebimento, indica qual nota fiscal conferir primeiro quando há vários caminhões na doca, com base no estoque abaixo do ideal e nos pedidos que aguardam aquele produto, e sugere o funcionário mais rápido para a tarefa [1].
"Penso em melhorar a capacidade humana, mas também melhorar a capacidade de negócio", disse Evandro, responsável pelo produto de dados da Totvs [1].
Os dois executivos dos cases concordaram num ponto: tecnologia sem mudança de processo não entrega resultado. "Tirar um produto, trazer outro sem mexer em processo, geralmente não dá certo", resumiu o representante da Totvs que mediou o painel [1]. Bacho completou: "Eu também não acredito que a IA vai substituir o ser humano. Eu acho que a IA veio para complementar, para ajudar" [1].
O que o case ensina para quem opera um e-commerce no Brasil
A lição comum aos dois cases é que a tecnologia só rendeu ganho depois que as empresas arrumaram a casa antes de automatizar. Para quem avalia um projeto parecido, os passos que apareceram nos dois relatos foram:
Nenhuma das duas empresas tratou a IA como substituta do time de armazém. Em ambos os cases, o ganho citado foi de autonomia e velocidade para quem já trabalhava na operação, não de corte de pessoal, o que também respondeu à pressão real do cliente final por um rastreio de pedido mais rápido e confiável.
- 1Saneamento da base de dados antes de qualquer implantação de WMS, para não automatizar um processo manual cheio de inconsistência.
- 2Coletores de dados em campo, substituindo planilha e papel por leitura em tempo real do estoque e da separação.
- 3Indicadores visíveis para toda a operação, não só para a gestão, via painéis e televisões no armazém.
- 4Reorganização física do espaço (mapa de calor) para aproximar os itens de maior giro da área de conferência.
- 5Liberação gradual de agentes de IA para tarefas específicas, mantendo o time operacional no centro da decisão.
Fontes
- [1]E-Commerce Brasil, Como a Orfeu saiu do papel e chegou a 800 pedidos por dia no e-commerce — ecommercebrasil.com.br
- [2]Exame, E-commerce da Orfeu, marca de café dos Marinho, cresce 60% na pandemia — exame.com
- [3]Meio & Mensagem, Orfeu quer levar Brasil para mercado internacional — meioemensagem.com.br



